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Refugiados são tema cada vez mais frequente em livros para crianças. Conheça alguns!

Um barco cheio de pessoas sem coletes salva-vidas e o mar por todos os lados. Um pai e seu filho atrás do arame farpado. Filas imensas de pessoas a pé. Grades, barracas, lágrimas e trilhos de trem misturados a corpos de viajantes.

O drama de pessoas que deixam seus países e se tornam refugiados ultrapassou o universo de organizações humanitárias, discursos políticos e manchetes do noticiário para virar tema cada vez mais presente em obras de arte –são músicas, livros, exposições, filmes, peças que buscam refletir sobre a condição desses imigrantes.

Só nos últimos meses no Brasil, foram vários exemplos: os Tribalistas lançaram um álbum com a canção “Diáspora” (ouça abaixo), Chico Buarque ressurgiu com o disco “Caravanas”, em que a música-título mescla a questão dos refugiados com a dos moradores das favelas do Rio, e um dos destaques da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), em março, foi a peça “Revolução em Pixels”, sobre a guerra da Síria, que é um dos muitos estopins para a fuga em massa de moradores da região.

A literatura infantojuvenil está de olhos abertos para tudo isso. Livros para crianças e jovens que retratam as migrações causadas por diferentes motivos, as viagens forçadas e o acolhimento nos novos países pipocam em livrarias de diversos países. E, há pelo menos um ano, vêm aparecendo com força também no Brasil.

“A foto do garoto sírio que morreu afogado me chocou muito. A partir daquela imagem, decidi escrever um livro infantil que falasse sobre refugiados”, diz o escritor Tadeu Sarmento. Foi assim que nasceu “O Cometa É um Sol que Não Deu Certo”, primeiro texto infantojuvenil do autor, que fala da amizade entre quatro crianças sírias: três muçulmanas e uma cristã, em um acampamento na fronteira com a Jordânia. Toda a pesquisa para construir os personagens e descrever os locais foi feita com base em reportagens, fotografias e filmes.

A obra foi um dos 1.300 originais inscritos no prêmio de literatura infantojuvenil Barco a Vapor deste ano –e, em julho, foi anunciada como a vencedora. Além dos R$ 40 mil de adiantamento de direitos autorais, o escritor verá a produção publicada pela editora SM, com previsão de lançamento em 31 de outubro. “Acho o livro bom, com um tema muito atual. O prêmio foi um termômetro. Vencer fura um bloqueio do mercado, uma negativa natural das editoras.”

Sarmento fala com conhecimento de causa. O escritor ganhou também o Prêmio Pernambuco de Literatura, em 2014, com o romance “Associação Robert Walser Para Sósias Anônimos” (ed. Cepe), e levou o Prêmio Governo de Minas Gerais, em 2016, com um livro de poesia ainda inédito.

“Mas escrever para crianças é diferente de tudo o que já tinha feito. Porque é um leitor mais honesto. O adulto, quando pega um livro, já parte do pressuposto de que aquilo não é verdade. Ele não mergulha de cabeça. Por isso, o escritor cria tantos jogos literários. Com a criança acontece o contrário –e acaba sendo mais difícil escrever para ela”, diz. “Tudo precisa ser dito nas entrelinhas, para não correr o risco de ser didático demais.”

Uma das maneiras que encontrou para fugir do didatismo, armadilha constante ao abordar um assunto como a crise dos refugiados, foi a ajuda da filha de sua mulher. “Ela tem 12 anos e lia os originais. Depois, eu via o que funcionava e o que não.”

Embora o livro ainda nem tenha sido lançado, Sarmento já tem outro pronto pra esse público na manga. “Quem sabe eu não me dedique só às crianças daqui para a frente. Porque os adultos já estão perdidos, né?”, brinca.

EDUCAÇÃO

Para a escritora Ana Dantas, contudo, é impossível fugir da função educativa ao tratar dessas questões com crianças. “Qualquer artista deve deixar um legado bom para a sociedade. No caso de um escritor, fazer o leitor refletir. Quero que a criança leve o assunto dos refugiados para o pai, o vizinho, o professor.”

Dantas é autora de “Deixando Para Trás”, sobre uma menina que acolhe um garoto sírio no Brasil. Para a pesquisa, procurou informações na internet e visitou uma ONG que recebe refugiados em São Paulo, no bairro do Glicério. “Influenciou principalmente para construir o personagem do pai do garoto e todos os seus dilemas, a falta de emprego, o preconceito com quem não fala português.”

Mas a história quase não foi publicada. Para financiar a obra, a autora optou por uma vaquinha on-line em um site de financiamento coletivo. O objetivo era receber cerca de R$ 35 mil, valor que arcaria com a criação do projeto gráfico, a impressão dos exemplares e a divulgação. Foram três meses de campanha –e apenas R$ 1.000 arrecadados no crowdfunding.

“Não sei por que deu errado. É um tema atual, tem apelo, divulguei na internet, falei com amigos. Não repetiria a experiência em um próximo livro”, diz. Mas a temática chamou a atenção da editora Franco, que entrou em contato com a escritora e decidiu publicar o livro antes mesmo de o texto estar finalizado. A obra foi lançada em julho.

Outras editoras brasileiras também embarcaram na questão dos refugiados. No ano passado, a V&R traduziu para o português “A Viagem”, que narra a jornada de uma família rumo ao desconhecido pela ótica de uma criança. A autora e ilustradora italiana Francesca Sanna criou a narrativa após conversar com pessoas que passavam por essa situação. A Melhoramentos lançou neste ano outra tradução: “Onde Vou Morar?”. O texto de Rosemary McCarney, embaixadora canadense e autora de “Todo Dia É Dia de Malala”, traz pensamentos que certamente passam pela cabeça de uma criança que é obrigada a deixar o seu país e fugir sabe-se lá para onde.

Mas, mais do que o texto, são as fotos que dão um verdadeiro nó na garganta dos leitores, sejam eles adultos ou crianças. As imagens são da Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) e mostram cenas de famílias inteiras em suas diásporas, na precariedade dos campos de refugiados e na incerteza do que está por vir. E revelam que a fuga das guerras, da fome, das catástrofes, das perseguições e dos desastres naturais é global, com fotografias captadas em países como Jordânia, Grécia, Líbano, Quênia, Camarões, Hungria… Uma delas abre este texto.

No Brasil e de maneira independente, a garota Sophia Maia, 11, lançou no ano passado um livro de ilustrações inspiradas em refugiados. O lucro é doado para a Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado), ONG que tem sede em São Paulo.

“Não existem temas impossíveis na literatura infantil. Mas maneiras de falar sobre certos assuntos, aproximando-os do universo da criança, dos seus gosto e das suas ideias. E não forçando-as a ler algo só porque é ‘importante’ ou ‘histórico’”, acredita o escritor colombiano Jairo Buitrago, que lançou no Brasil “Para Onde Vamos”. Publicado pela Pulo do Gato, o texto fala de forma poética sobre a migração de um pai e sua filha.

Na história, já comentada aqui no blog, a garota vai enumerando tudo o que vê pelo caminho:  vacas, pássaros, nuvens –e, claro, também o coiote, como o pai chama um cachorro bem grande e mal-encarado que acompanha o trajeto e representa a figura da pessoa paga para fazer as travessias ilegais. “A literatura não tem que ensinar nada. Suas preocupações são outras, próprias da arte de escrever. Mas somos responsáveis pelo que os pequenos leem. Se um livro serve para a sala de aula, isso é bem-vindo. Escritores se entendem muito bem com professores sensíveis à literatura.”

OS LIVROS CITADOS

 

“O Cometa É um Sol que Não Deu Certo”

Autor Tadeu Sarmento

Ilustrador Apo Fousek

Editora SM

Preço não divulgado

Leitor intermediário + leitura compartilhada

Lançamento 31 de outubro

 

“Deixando Para Trás”

Autora Ana Dantas

Ilustradora Vanessa Alexandre

Editora Franco

Preço R$ 38 (2017; 32 págs.)

Leitor intermediário + leitura compartilhada

Leia mais.

Fonte: Folha de S. Paulo